O medo de viver
Sobre luto, fins e recomeços.
Ontem eu perdi um amigo.
E, quando a notícia chegou, ela encontrou um terreno já bastante devastado.
Nos últimos meses, eu estive em um lugar escuro. Um daqueles lugares que a gente não conta para quase ninguém. Um lugar feito de medo, insegurança, ansiedade e da sensação constante de que tudo pode desmoronar a qualquer momento.
Mas a verdade é que essa história não começou ontem.
Talvez ela tenha começado em 2002.
Eu era muito jovem quando perdi um amigo pela primeira vez. Não foi uma morte qualquer. Foi uma tragédia. Uma violência tão absurda que parecia impossível de compreender. Seu pai tirou sua vida e, de repente, alguém que existia simplesmente deixou de existir.
Eu não sabia lidar com aquilo.
Anos depois, veio meu avô.
Por conta de um erro médico, o câncer foi levando ele embora aos poucos, até que restaram apenas as despedidas que ninguém nunca está preparado para fazer.
Depois veio minha avó. Uma das despedidas mais tristes que enfrentei.
E, recentemente, a Phoebe. Dezenove anos de companhia cabem dentro de uma casa. Dentro da rotina. Dentro dos silêncios. E quando esse amor vai embora, ele deixa espaços que parecem grandes demais para serem preenchidos.
Ontem, mais uma vez, a morte bateu à porta.
Alexandre partiu. E eu me vi olhando para trás.
Não apenas para as pessoas que perdi, mas para mim mesmo.
Para todas as vezes em que escondi o que sentia. Para todas as vezes em que fingi estar bem. Para todas as vezes em que deixei o medo decidir por mim.
Ser um homem gay ensina muitas coisas. Algumas delas são terríveis. Você aprende cedo que demonstrar certas emoções pode ser perigoso. Aprende a medir palavras. Aprende a esconder partes de si mesmo. Aprende a se proteger.
Na escola, para não virar alvo.
Na igreja, para não ouvir que existe algo errado com você.
Na sociedade, para tentar ser aceito.
O problema é que, depois de anos fazendo isso, você já não sabe mais onde termina a proteção e começa a prisão.
Passei boa parte da vida escondendo sentimentos.
Engolindo dores.
Tentando parecer mais forte do que realmente era.
E isso cobra um preço.
Nos últimos meses, esse preço chegou.
Mudanças de trabalho. Desafios novos. Inseguranças antigas. Medos que eu achava que estavam resolvidos voltaram com força total.
Cheguei ao fundo de um poço. E quando digo fundo, não estou usando uma figura de linguagem. Foi um lugar onde eu mal reconhecia a pessoa que via no espelho. Um lugar onde a ansiedade ocupava todos os cômodos da casa. Um lugar onde eu já não conseguia enxergar meus sonhos com clareza.
Mas existe uma coisa curiosa sobre os poços. Quando você chega ao fundo, não existe mais para onde cair. Só existe a possibilidade de subir.
E foi isso que aconteceu.
Não sozinho. Com amor. Com terapia. Com amigos. Com família. Com pessoas que seguraram minha mão quando eu já não tinha forças para me segurar.
Aos poucos, fui encontrando uma corda. Depois encontrei uma árvore.
Amarrei a corda. E comecei a subir.
Ainda tenho cicatrizes. Ainda tenho medo de vez em quando.
Mas alguma coisa mudou.
Porque eu percebi que todas essas perdas estavam tentando me ensinar a mesma coisa. A vida acaba. Para todo mundo. E justamente por isso ela não pode ser vivida pela metade.
Não quero mais tomar decisões movido pelo medo. Não quero mais esconder quem eu sou. Não quero mais deixar sonhos guardados em gavetas esperando o momento perfeito. Não quero mais pedir permissão para existir.
Quero arriscar. Quero criar. Quero errar. Quero tentar. Quero transformar ideias em projetos. Projetos em realidade. E realidade em memórias.
A morte me ensinou muitas coisas ao longo da vida. Mas talvez a principal delas seja esta:
Enquanto eu estiver aqui, eu quero viver.
De verdade.
Por mim.
Para mim.
Sem medo.



Você é luz, Vini, saiba disso. Sempre estarei aqui para o que precisar . ❤️🙏
❤️❤️❤️